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domingo, 11 de março de 2012

Canhoto

Quantos canhotos você conhece? Deve ter encontrado alguns poucos na sua memória. Pesquisas indicam que mais de 90% das pessoas são destras, ou seja, escrevem com a mão direita.

Esta prevalência no uso da mão direita ocorre desde os tempos pré-históricos. Cerca de 80% das pinturas rupestres foram feitas com a mão direita. Ainda, os estudos sobre pintura demonstram que não houve alteração, ou mudança no padrão de uso das mãos, em mais de 5 mil anos (de 3000 a.C. a 1950).

Figura 1. Pinturas rupestres da Toca do Boqueirão da Pedra Furada. Fonte: Fumdham


Os canhotos sofreram e sofrem preconceito. Muito deste preconceito é e foi causado por interpretações simplórias de eventos e textos importantes. Vejamos alguns exemplos. Na Bíblia, em Mt 25,41, está escrito: “Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. Já no dicionário Aurélio, o canhoto é definido como “inábil, desajeitado”. Em outros idiomas a palavra “canhoto” também possui definições de cunho negativo.

Uma curiosidade, que você deve ter ouvido nas aulas de História. Durante a Revolução Francesa, no século XVIII, os girondinos (alta burguesia) sentavam-se à direita e os jacobinos (pequena burguesia e sans-culottes - populares) à esquerda, em relação à mesa da presidência. Após este evento, partidos políticos que se voltam contra o governo, com um ideal mais popular, são chamados de “Esquerda”. Essa associação da esquerda com a política ficou tão forte que na ditadura espanhola do General Franco (1892 – 1975) não era permitido aos alunos escreverem com a mão esquerda, pois ela era associada com a “Esquerda Comunista”.

No século XIX surgiram algumas teorias para explicar o uso predominante da mão direita. Uma delas, a da distribuição visceral, alegava que os órgãos viscerais estavam mais distribuídos para a esquerda. Isso faria com que o pé esquerdo controlasse o peso do corpo, deixando a mão direita livre gerando uma maior habilidade a ela. Já a teoria da Espada e Escudo, ou Evolução Social, alegava que os soldados empunhavam seus escudos com a mão esquerda, como uma forma de proteger o coração, enquanto a direita ficava livre para atacar com a espada. Após eras de combates, a mão direita ganhou esta maior capacidade manipulativa. Entretanto, nenhuma destas duas teorias faz sentido. A primeira não explica porque os canhotos não têm os órgãos invertidos e a segunda porque o número de canhotos permanece estável através dos tempos.

Depois do conhecimento das funções cerebrais, principalmente das funções hemisféricas, surgiram novas explicações para as diferenças entre destros e canhotos. De modo geral, cada hemisfério é melhor para operar determinadas funções, como a fala. Mas será que o cérebro de destros e canhotos funciona igual? Vejamos esta diferença em relação a fala.

Apesar de talvez você imaginar que o canhoto tenha todas as suas funções mentais invertidas (seria um destro ao contrário), na verdade em 70% dos canhotos as regiões cerebrais responsáveis pela fala estão no Hemisfério Esquerdo. Os outros 30% têm representação bilateral (nos dois hemisférios). Enquanto isso, em 95% dos destros a fala está localizada no Hemisfério Esquerdo. Graças ao fato de parte dos canhotos terem representação bilateral para a fala, eles têm uma chance maior de se recuperar de uma afasia, em conseqüência de um derrame, já que as suas funções cerebrais são mais espalhadas entre os dois hemisférios.

Uma ferramenta para descobrir a dominância manual das pessoas foi publicada em 1971.  R.C. Oldfield publicou o seu Endinburgh Handedness Inventory (Inventário de Dominância Manual de Edimburgo). Ele é muito popular e é utilizado em vários estudos científicos para descobrir se uma pessoa é destra, canhota ou ambidestra.

Mas como descobrir qual hemisfério domina a fala? Jerre Levy e Mary Lou Reid apontaram que a posição da mão responderia a esta questão. Se você escreve com a mão invertida (acima da linha da escrita), quem controla a fala é o mesmo hemisfério desta mão. Em outras palavras, se você é canhoto e escreve com a mão “torta”, acima da linha, é o seu hemisfério esquerdo quem controla a fala. O mesmo vale para os destros, mas neles é mais raro alguém escrever assim. Esta idéia é controversa e não foi comprovada por outros estudos.


Figura 2. À esquerda está o canhoto Barack Obama com sua mão invertida ao escrever. À direita, um canhoto que não inverte. Fonte: Google.com


Apesar de também termos outros órgãos aos pares, como olhos, ouvidos e pés, eles não possuem uma relação forte com a Assimetria Cerebral, como no caso das mãos. Mas apesar disto, existe uma correlação alta e positiva entre preferência de mão, olho, ouvido e pé!

Sobre a hereditariedade, a chance de um casal de destros ter um filho canhoto é de 2%. Mas se alguém do casal for canhoto, a chance sobe para 17%. Se os dois forem canhotos, a chance pula para 46%. Entretanto, pais e mães canhotos têm mais chances de ter um filho destro (54%) do que canhoto!

Alguns estudos apontam que os canhotos podem ter desordens de imunidade 2,5 vezes maior que os destros e também índice de desordens de aprendizagem até 10 vezes maior! Uma das alegações é que a testosterona diminuiria o crescimento de partes do hemisfério esquerdo durante a vida fetal. Isto resultaria em déficits no desenvolvimento da aprendizagem, com maior incidência no sexo masculino.

Mas estas desordens podem fazer os canhotos morrerem antes dos destros? Vamos ver alguns dados. Em outro estudo controverso, Stanley Coren descobriu que a proporção de canhotos diminui com a idade, em pessoas de 20 anos, há 13% de canhotos, mas aos 80 anos, a proporção é de apenas 1%! Em outro estudo foi encontrado que a mulher vive mais que o homem (77,55 e 71,61 anos, respectivamente). Entretanto a média de vida dos destros é de 75,34 anos contra 66,20 anos para os canhotos!

Segundo alguns pesquisadores, estas diferenças podem ser explicadas por uma maior incidência de patologias nos canhotos, bem como um maior número de acidentes neste grupo. Entretanto, outros pesquisadores apontam que pode ocorrer uma mudança de dominância manual nos canhotos, o que mascararia alguns dados obtidos (muito foram obtidos com entrevistas de familiares após a morte).

Pelo que foi apresentado, você percebe que muito foi estudado em relação aos canhotos. Alguns estudos controversos geraram resultados que ainda precisam ser melhor investigados. Mas o que fica é que num mundo feito para destros, os canhotos não têm muitas opções.

Em geral eles têm que se adaptar ao mundo que dificulta a vida deles. Por isso, ao se aplicar o Inventário de Edimburgo, é muito comum ver canhotos que na verdade são ambidestros. A pressão social não permite que os canhotos desenvolvam plenamente suas habilidades, isso faz com que você veja canhotos que escrevem com a mão esquerda, tocam um instrumento com a direita, penteiam o cabelo com a esquerda, escovam os dentes com a direita e etc.


Figura 3. Ned Flanders com seu Leftortium (Canhotório, em tradução livre). Fonte: Leftorium 


O personagem Ned Flandersdo desenho The Simpsonsé canhoto e sofria para usar alguns objetos, por exemplo, uma tesoura. Ned então decidiu criar uma loja só com utensílios “adaptados” aos canhotos. E este tipo de loja existe no mundo real (veja o site aqui). E é um mão na roda para os canhotos, pois torna mais fácil realizar uma série de atividades cotidianas (usar abridor de latas, mouse, etc.).

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Bruno Marinho de Sousa

Para conhecer mais o assunto:

SPRINGER, S. P. e DEUTSCH. D. (1998), “O Enigma do Canhoto”, in: Sally P. Springer e Georg Deutsch, Cérebro esquerdo, cérebro direito (Tradução: Thomaz Yoshiura), São Paulo: Summus, 1998. (Este é um livro bem acessível em sua linguagem e fácil de ser encontrado em sebos).

Oldfield, R.C. (1971). The assessment and analysis of handedness: The Edinburgh inventory. Neuropsychologia, 9, 97-113.


Curiosidades em português: Mundo Canhoto
 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Os primeiros estudos em assimetria cerebral



No texto Assimetria cerebral dissemos que o hemisfério esquerdo (HE) era considerado dominante devido à imediata consequência que lesões nele causavam no comportamento observado. Isto não ocorria com o hemisfério direito (HD), o que o fez ser considerado inferior.

Agora iremos abordar as primeiras pesquisas em assimetria cerebral, às vezes também chamada de lateralidade ou especialização hemisférica.


Conforme já citamos, os primeiros relatos de diferenças hemisféricas são antigos, por exemplo, John Hughlings Jackson (1835-1911) apontou que o HD possuía papel fundamental na percepção espacial (1874). Apesar deste relato longínquo, o assunto despertou maior interesse a partir da década de 1950, com Roger Sperry e seus colaboradores, como Ronald E. Myers, A. M. Schrier e Michael Gazzaniga.

A seguir apresentaremos como essa ideia de diferença hemisférica foi explorada e estudada.



Figura 1. À esquerda vemos Roger Sperry (1913-1994), pesquisador americano, agraciado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina (1981) por suas pesquisas sobre separação do corpo caloso e identificações das funções hemisféricas. À direita vemos Michael Gazzaniga (1939-), um dos grandes responsáveis pelo nosso conhecimento sobre esta área



Como começaram estes estudos?


Em um de seus estudos seminais, Sperry e sua equipe treinaram gatos para discriminar estímulos visuais (formas geométricas) apresentados numa tela dentro de uma caixa. Os animais davam as repostas pressionando pedais com suas patas (ver Figura 2). Primeiro um grupo normal de animais foi treinado e estes aprenderam facilmente a tarefa proposta.



Figura 2. Caixa usada para o condicionamento dos gatos na tarefa de discriminação. À esquerda é possível ver o mecanismo utilizado para apresentação dos estímulos. Ali são apresentados dois exemplos de estímulos visuais utilizados na tarefa. O animal deveria diferenciá-los, pressionando a barra correspondente a cada estímulo.


Para testar se a estrutura chamada quiasma óptico (ver Figura 3) estava envolvida na transferência de informações entre os olhos, os pesquisadores separaram cirurgicamente esta estrutura em outro grupo de animais. Após a cirurgia, os animais foram treinados com um dos olhos vendados. Terminada a fase de aprendizagem, os pesquisadores venderam o olho que aprendeu a tarefa, liberando o que permaneceu ocluído. 
 
Com este olho, o gato comportou-se adequadamente na tarefa, cometendo pouquíssimos erros, indicando que houve transferência de aprendizado entre os olhos. Esta transferência ocorreu por alguma outra estrutura cerebral. Então nossos sagazes pesquisadores não pararam por aqui, pois eles ainda tinham algumas cartas na manga para descobrir como a informação poderia ser transferida.

Figura 3. Quiasma óptico humano. Você pode observar que informações que chegam à metade temporal da retina – perto das orelhas, são transmitidas para o mesmo hemisfério (ipsilateral). Enquanto isso, informações que chegam à metade nasal vão para hemisférios opostos (contralateral). Os pesquisadores separavam esta estrutura em destaque, só que em gatos, impedindo que informações se cruzassem. Isto garantia que estímulos apresentados em cada metade do campo visual fossem projetados ao hemisfério oposto. Fonte: Manual Merck



Nesta época ainda não era tão claro o papel do corpo caloso (Figura 4) nas funções cerebrais. Porém a funcionalidade do quiasma já era conhecida anatomicamente (Figura 3). Para testar se o corpo caloso poderia estar envolvido na transferência destas informações, foi realizado o seguinte procedimento. Primeiro foi separado apenas o corpo caloso de alguns animais. Como esperado, a informação foi transferida pelo quiasma óptico, que permaneceu intacto. Depois veio a grande sacada de nossos ilustres pesquisadores. Eles separaram agora tanto o corpo caloso quanto o quiasma óptico. Como consequência não houve transferência de aprendizado. Com base nisto eles puderam concluir que o corpo caloso era a estrutura envolvida na transferência de informações entre os hemisférios cerebrais.


Figura 4. Corpo caloso em visão frontal e lateral. Essa estrutura é responsável pela comunicação entre nossos hemisférios cerebrais. Fonte da imagem: Wikipedia 


A partir destes resultados foi possível entender melhor o processamento visual das informações no nosso cérebro, em especial entre os hemisférios. Após isto, Sperry, Gazzaniga e outros colaboradores estudaram pessoas com uma condição peculiar. Elas foram submetidas a uma cirurgia de comissurotomia (separação do corpo caloso). Antes que pensem mal dos nossos pesquisadores, isto não foi feito para fins científicos! Estas cirurgias foram realizadas para o tratamento de certo tipo de epilepsia intratável com remédios¹.

Então com base nos resultados obtidos com animais, eles poderiam agora estudar o funcionamento em separado dos hemisférios cerebrais em humanos.

Um elegante estudo conduzido por Sperry e Gazzaniga (1967) nos permite perceber as nuances da colaboração hemisférica nas tarefas do dia a dia. Por exemplo, foram apresentados vários objetos para um participante, um homem recém-comissurotomizado (ver nota 1). Foi pedido a ele que nomeasse estes objetos. Ele conseguia nomear normalmente todos os objetos. Em outra sessão, a tarefa era a mesma, porém o participante não podia ver os objetos, apenas explorá-los com o tato. Com a mão direita (comandada pelo HE) ele realizava a tarefa normalmente. Entretanto, com a mão esquerda (HD) ele não conseguia nomeá-los. Mas se os objetos lhe fossem mostrados, ele conseguia apontar qual objeto foi manuseado ².

Em geral as atividades diárias deste paciente não foram prejudicadas. Entretanto, ao criar engenhosos testes, os pesquisadores conseguiram por a prova a especificidade de cada hemisfério.


Resumindo, esta e outras pesquisas concluíram que os hemisférios possuem, grosso modo, as especificidades apontadas na tabela abaixo:

Principais funções dos hemisférios cerebrais
Hemisfério Esquerdo
Hemisfério Direito
  • processa vários aspectos da linguagem (por ex., compreensão e produção);
  • objetos (cerca de 90% dos humanos são destros);
  • aprendizagem de movimentos;
  • processar detalhes de uma imagem (alta frequência espacial);
  • capacidade de interpretar e construir teorias sobre as relações entre eventos percebidos e sentimentos.
  • melhor desempenho em habilidades artísticas (por ex.; pintura e música);
  • reconhecimento de objetos tridimensionais em orientações não usuais;
  • reconhecimento de faces;
  • processar formas globais (baixa frequência espacial);
  • tarefas visuoespaciais – como desenhar cubo e outros padrões tridimensionais;
  • monitoramento atentivo.



Mas só é possível estudar a lateralidade em populações clínicas?

Não. Doreen Kimura (1993-), em 1961, fez um estudo que ampliou as possibilidades para pesquisas em assimetria. Ela utilizou o método de escuta-dicótica (cada ouvido recebe uma informação diferente) em pessoas normais (ou hígidas). Encontrou uma vantagem do HD no processamento da informação lingüística. Mais tarde estes resultados foram refutados por problemas experimentais. Porém, o mais importante de sua pesquisa foi incrementar um método válido para se estudar a lateralidade em pessoas neurologicamente normais, ou seja, no cérebro intacto e funcional.


Além do método de escuta-dicótica, existem diversos outros métodos e técnicas para se estudar a assimetria em populações não-clínicas. Agora não cabe detalharmos cada um. Faremos isto de acordo com cada pesquisa apresentada. Bem, por enquanto era apenas isto que queríamos apresentar a vocês.
 
Gosta de textos sobre história da Psicologia e Neurociências? Leia esse sobre Origem das Neurociências: Origem da Psicologia e das Neurociências 

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Notas:

¹ Na metade do século XX, William Van Wagenen, realizou as primeiras cirurgias de separação do corpo caloso (comissurotomia) para o alívio dos sintomas de epilepsia intratável farmacologicamente. Isto impediria o excesso de descargas elétricas entre os hemisférios através do corpo caloso. Porém este procedimento foi abandonado porque seus resultados ficaram aquém do esperado. Com base nos estudos de Sperry, Joseph Bogen e Philip Vogel retomaram a comissurotomia. A hipótese foi de que possivelmente não houve separação total do corpo caloso. Então fizeram a separação total desta estrutura em uma série de pacientes com o mesmo tipo de problema, que ficaram conhecidos como a série da Califórnia. A partir disto, Roger Sperry e seu aluno Michael Gazzaniga realizaram diversos estudos com estes pacientes comissurotomizados (ou split-brains). Estas cirurgias são realizadas até hoje, sendo que há também a retirada de um dos hemisférios em alguns casos.


² Alguns pacientes logo após a cirurgia relataram alguns comportamentos bizarros. Por exemplo, um deles disse que certa vez ao tentar pegar uma camisa no armário, cada mão pegou uma. A mão esquerda pegou um tipo e a direita outro. Isso ocorreu sem o controle consciente do paciente. Este tipo de comportamento não foi relatado por outros pacientes.


Bruno Marinho de Sousa
Se quiser aprender mais:

  • Sperry, R. W.; Myers, R. E.; Schrier, A. M. (1960) Perceptual capacity of the isolated visual cortex in the cat. The Quarterly Journal of Experimental Psychology, vol XII, 65-71. (Artigo que relata o primeiro estudo descrito).
  • Sperry, R. W.; Gazzaniga, M. (1967) Language following surgical disconnection of the hemispheres. Brain Mechanisms Underlying Speech and Language: Conference Proceeedings, 108-121. (Neste texto é apresentado o experimento no paciente que fez a comissurotomia). 

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Assimetria cerebral

 O que é assimetria cerebral? Uma introdução ao assunto

Neste primeiro texto para o blog abordaremos um assunto que ficou em voga há um tempo. A assimetria cerebral refere-se às diferentes capacidades que cada hemisfério cerebral possui para processar a informação que chega até nós, através dos nossos órgãos dos sentidos (olhos, pele, ouvidos, etc.). Como você deve saber, temos um cérebro que é dividido em duas partes, hemisfério esquerdo e direito. Anatomicamente eles são muito similares, mas funcionalmente eles possuem capacidades diferenciadas.

Hemisférios cerebrais esquerdo (embaixo) e direito (acima). Fonte:Morphonix



Provavelmente você já deve ter ouvido/lido que o hemisfério direito é mais criativo, enquanto o esquerdo, mais matemático. Algumas pessoas até atribuem estas diferenças hemisféricas a traços de personalidade, por exemplo, alegam que a pessoa é mais “hemisfério esquerdo” (menos emotiva ou “racional demais”). Iremos abordar melhor este assunto em outros textos.


Mas de onde veio a assimetria cerebral? Quem a descobriu?

Um dos primeiros relatos consistentes sobre a relação entre hemisfério cerebral e função hemisférica veio de um médico francês chamado Marc Dax (1771-1837). Ele percebeu que vários de seus pacientes com lesões no lado esquerdo da cabeça apresentavam problemas de fala. Entretanto o mesmo não ocorria quando as lesões eram do lado direito. Apresentou seus dados e observações num congresso médico, mas elas foram ignoradas porque na época o pensamento vigente sobre o funcionamento do cérebro era baseado na frenologia.

Não demorou muito, outro francês Paul Broca (1824-1880) novamente levantou a questão da relação entre lesão no hemisfério esquerdo e problemas na fala decorrentes disto. Inclusive chegou a especificar uma área para a fala, que mais tarde recebeu seu nome em sua homenagem, a área de Broca responsável pela produção da fala, que na maioria de nós fica do lado esquerdo, logo acima da orelha esquerda.

Desta vez esta relação não passou em branco, tanto por Broca ser um pesquisador eminente, quanto pelo debate acalorado que ocorria no campo científico na época. Vários estudos subseqüentes confirmaram estas evidências e ampliaram o conhecimento sobre a questão.

Devido a evidente seqüela comportamental que lesões em certas regiões do hemisfério esquerdo (áreas de Broca e Wernicke, por exemplo) causam na fala – não tendo um correlato similar no hemisfério direito – o esquerdo passou a ser chamado de “dominante” por muitos anos, enquanto o direito era considerado inferior. Porém, atualmente esta idéia de dominância não mais reflete as verdadeiras funções dos nossos hemisférios. De forma geral, podemos dizer que o nosso hemisfério esquerdo é envolvido em vários aspectos da linguagem, desde a sua produção até a compreensão, e por outro lado, o direito é responsável em grande parte pelas relações espaciais no ambiente.

Então, agora quando você souber de alguém que teve um derrame, você já pode descobrir com grande chance de acerto, em qual lado do cérebro isto ocorreu. Se a pessoa tiver problemas de fala provavelmente foi no hemisfério esquerdo. Mas e se for no hemisfério direito?

Logo iremos abordar mais detalhes dos nossos hemisférios, como os pesquisadores fazem para estudá-los e estabelecer suas funções.
 
Se quiser ler mais sobre Origem de temas em Neurociências, acesse aqui: Psicologia e Neurociências

Até mais,

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Bruno Marinho de Sousa

Mais sobre o assunto:
  • Cérebro esquerdo, cérebro direito. Sally P. Springer & Georg Deutsch. (Tradução: Thomaz Yoshiura), São Paulo: Summus, 1998. (Este é um livro bem acessível em sua linguagem e fácil de ser encontrado em sebos).
A imagem do cérebro deste texto foi alterada para a atual em 20/102013 às 02:36h.