domingo, 27 de outubro de 2013

Psicofísica Moderna III - Escalas Psicofísicas (parte I)



Existem pessoas que são notáveis pelo seu legado na história da humanidade. Porém, dentro deste grupo, existe um seleto grupo das pessoas notáveis por diferentes acontecimentos em diferentes campos de atuação. Dentre deste segundo grupo, além de Michelangelo, Isaac Newton e Arnold Schwarzenegger, está Stanley Smith Stevens (1906-1973), psicólogo norte-americano que fundou o Laboratório de Psicoacústica da Universidade de Harvard.


Exemplo de personalidade reconhecida em diferentes campos de atuação. Para saber mais, clique aqui. Fontes (da esq. para dir.): curiosidades-andre.blogspot.com.br , uc.globo.com , washingtoncitypaper.com .


Em um texto anterior, Psicofísica Moderna I, nós mostramos que a partir de métodos psicofísicos diretos, Stevens reviu a Lei de Fechner e propôs A Função Potência. O peso desta descoberta dentro da história da Psicofísica é comparável à Fração de Weber e à Lei de Fechner. Esta contribuição permitiu o florescimento de uma Psicofísica mais subjetiva, baseada diretamente nos julgamentos dos participantes. Porém, esta nova forma de métrica incomodou os teóricos de modelos de medidas mais fundamentalistas a ponto de uma comissão ser formada para investigar estas novas técnicas de interpretações numéricas.



Nos anos de 1932-1940, a Associação Britânica para o Progresso da Ciência formou um comitê para examinar e se informar sobre a possibilidade de realizar estimativas quantitativas para eventos sensoriais. A Escala de Sonoridade de Sone, de autoria de Stevens, foi tomada como exemplo direto para críticas. A questão fundamental era: “É possível medir a sensação humana?” Apesar de soar como simplista e ingênua nos dias atuais, a dúvida suscitou desacordos e discussões em seus sete anos de atividade. Um dos membros escreveu no relatório final que:



“Qualquer lei pretendendo expressar uma relação quantitativa entre a intensidade de sensação e intensidade de estímulo não é apenas falsa mas, de fato, sem sentido, a menos que e até que um sentido possa ser dado ao conceito de adição tal como é aplicado a sensação”.



Em grande parte, tais discussões ocorreram porque os eminentes cientistas discutiam não somente a possibilidade de medidas sensoriais, mas, de fato, o próprio significado de medida. A questão permaneceu inócua até que Stevens publicou um artigo na revista Science em 1946. Foi a partir disso que o psicólogo estadunidense novamente teria seu trabalho reconhecido e, desta vez, não restrito apenas à Psicofísica. Neste artigo, Stevens propôs um conceito mais abrangente de medida e uma teoria dos níveis de medida em respostas aos membros mais tradicionalistas do extinto conselho. Este artigo de apenas quatro páginas se tornaria clássico e sua teoria obteve ampla aceitação não somente na Psicologia, mas em diversos domínios do conhecimento científico, de modo que ainda hoje é utilizada.

Artigo de Stevens publicado na Science em 1946.


A importância desse trabalho se deve, principalmente, pelo fato da medida ser entendida de uma maneira mais ampla e liberal, sendo uma atribuição de números a eventos ou objetos de acordo com regras. Estas regras se apresentam em níveis hierárquicos de restrições impostos aos dados, relativos, principalmente, aos axiomas matemáticos que eles preservam. Axiomas são regras das quais enunciados são derivados de maneira lógica. Os axiomas são salvos na medida em que permitem a substituição de elementos sem perda de informação. Quanto mais deles são preservados, mais sofisticada é a medida. Os axiomas matemáticos foram detalhados e descritos por Whitehead e Russell (1910-1913, 1965) no livro Principia Mathematica e demonstrados empiricamente por Guilford (1954).



As escalas descritas por Stevens podem ser nominais, ordinais, intervalares e de razão. Estas serão descritas num próximo texto. Nossa intenção aqui foi apresentar o tema em um contexto histórico. O modelo de níveis de medida proposto por Stevens  ainda hoje é utilizado para mensuração e análises estatísticas em amplas áreas do conhecimento.

Quer baixar o texto? Clique aqui.



Rui de Moraes Jr.

Para saber mais:

  • Michell, J. (2002). Steven’s theory of scale of measurement and its place on modern psychology. Australian Journal of Psychology, 54(2), 103.
  • Miller, G. A. (1975). Stanley Smith Stevens, Biographical Memoir, v. 47. Washington, DC: National Academy of Sciences.
  • Pasquali, L. (2010). Teoria da medida. Em: Pasquali, L. (Org.) Instrumentação psicológica: fundamentos e práticas (pp. 56-78). Porto Alegre: Artmed.
  • Stevens, S. S. (1946). On the theory of scales of measurement. Science, 103 (2684), 677-680.

domingo, 20 de outubro de 2013

Ambliopia

Quando era criança notei algo estranho na minha visão. Quando eu fechava o olho esquerdo e observava o mundo ao redor, parecia nítido. Quando fechava o olho direito não era a mesma coisa, o mundo ficava mais embaçado. Era mais difícil de distinguir os detalhes com meu olho esquerdo. Isso me intrigou, perguntei para um amigo se os olhos dele também eram assim. Ele disse que era um pouco. Mas como eu era criança achei que estava tudo certo, era assim mesmo, um olho bom e um ruim...


Cheguei a ir num oftalmologista nessa época e deveria ter voltado no ano seguinte. Na faculdade a visão ficou pior, passei a não enxergar bem as letras no quadro e sentir muitas dores de cabeça ao ler por um tempo prolongado. Então marquei uma consulta no oftalmologista. Ao terminar os exames descobri que tinha “perdido” 30% da acuidade do olho esquerdo. E foi então que pela primeira vez ouvi falar em ambliopia.

Figura 1. Diferença simulada entre os olhos para um caso de ambliopia. À esquerda a imagem formada pelo olho amblíope e à direita a imagem do olho bom. Durante a fusão das imagens pelos dois olhos há uma compensação da imagem borrada pelo olho bom. Imagem adaptada de: Insight Optometrists 


A ambliopia* é a redução da acuidade visual, que não é decorrente de alterações físicas ou orgânicas no olho, mas sim pela falta de estimulação no período crítico de desenvolvimento do sistema visual. Ela acomete de 1 a 5% da população e não é corrigida com óculos, pois o déficit visual está na região do cérebro que recebe a informação do olho amblíope. No período crítico o cérebro possui uma alta sensibilidade para adquirir sinais instrutivos e adaptativos do ambiente externo. Então se a região cerebral não for estimulada de forma apropriada pode-se desenvolver a ambliopia. Dessa forma, haverá um favorecimento do processamento da informação visual do olho sem ambliopia.

Algumas causas da ambliopia podem ser:
  • desequilíbrio funcional entre os dois olhos devido à anisometropia (erro refrativo entre os olhos);
  • estrabismo (os olhos possuem um alinhamento anormal entre si) e
  • catarata congênita (opacificação do cristalino, que obstrui a passagem de luz no olho). 

Tratamento

A ambliopia deve ser diagnosticada e o seu tratamento deve ser prescrito e acompanhado por um médico. O médico especialista para isso é o oftalmologista.

Há documentos que indicam que um tratamento para ambliopia já era realizado desde 900 a.C. pelos mesopotâmicos. Esse tratamento é utilizado até hoje e se vale do uso de um tampão (oclusão) no olho bom. Dessa forma, a pessoa terá que usar o olho amblíope (ruim), estimulando as conexões dele com o cérebro. Esse procedimento pode melhorar a acuidade visual por meio de neuroplasticidade (uma espécie de remapeamento cerebral

Figura 2. Esquema de como pode ser colocado o tampão no olho não prejudicado para tratamento de ambliopia. Fonte: imagem à esquerda: Glasses Complete


Quanto menor a idade da criança, maior o ganho de acuidade visual durante o tratamento. Pesquisas mostram que crianças de 4 a 7 anos obtêm mais ganhos na acuidade visual que crianças que fizeram o tratamento entre os 7 a 12 anos.

E a adesão ao tratamento prescrito pelo médico influencia bastante as melhorias. O tampão deve ficar várias horas por dia e por vários meses no olho bom. Ele é incômodo e pode gerar mal estar para a criança na escola, pois o tampão pode ser motivo de piadinhas entre os colegas. Isso deve ser bem trabalhado com a criança, pois se ela não seguir o tratamento indicado, as melhorias podem ser inferiores àquelas esperadas.

É possível prevenir ambliopia?

Aparentemente não. Alguns pesquisadores apontam que há uma discussão sobre exatamente o que define a ambliopia (em relação à perda de acuidade visual) e também sobre a sua etiologia. Então, a melhor forma de evitá-la é com o diagnostico e tratamento precoce.

E os adultos, podem ser tratados?

O tratamento em adultos ainda está no começo. Estudos com animais e ensaios clínicos apresentam melhorias em adultos, mostrando que é possível melhorar a acuidade pela plasticidade cerebral.

Estudos recentes apontam que técnicas de Aprendizagem Perceptual podem mudar a habilidade e a capacidade perceptual de qualquer modalidade sensorial (como a visão, audição e etc.). Isso é feito por meio de exercícios com diferentes estimulações, por exemplo, detecção de contraste, acuidade de Vernier e etc. Essas técnicas podem funcionar porque exigem dos participantes discriminações visuais sutis, usando o olho amblíope sob condições de estimulações ativas do sistema visual (leia mais aqui).

Figura 3: Exemplo de estimulação visual ativa. Estímulos diferentes são apresentados aos olhos numa tarefa de aprendizado perceptivo. Fonte: Frontiers in Cellular Neuroscience


Os estudos citados anteriormente utilizam a estimulação monocular para se tratar a ambliopia. Entretanto, outros estudos, como os dos pesquisadores Zhou, Thompson e Hess - publicado em 2013 na revista Nature, apontam que é possível tratar a ambliopia com a estimulação dos dois olhos. A técnica se vale da função binocular: trabalhando os dois olhos ao mesmo tempo e usando um tampão translúcido no olho amblíope. O tampão utilizado permitia que a luz entrasse, mas não era possível perceber padrões visuais. Essa técnica é interessante, pois favorece o uso dos dois olhos assim como vemos o mundo, criando uma dificuldade maior no olho amblíope.

Já num estudo brasileiro conduzido por Procianoy e colaboradores (2004) foi utilizado o fármaco levodopa (um precursor da dopamina – link: pt.wikipedia.org/wiki/Dopamina) associada à oclusão do olho amblíope. Isso foi feito em pessoas com ambliopia com idade entre 7 e 40 anos. Houve uma melhoria média na acuidade visual de 37,5% nas pessoas que seguiram o tratamento!!

Como se observa, há alguns tratamentos que podem ser eficazes para a ambliopia. Porém, eles ainda não são utilizados na clínica por se tratarem de estudos experimentais, sem uma padronização de qual funcionaria melhor.

Então, a melhor forma de se “tratar” a ambliopia ainda é o diagnóstico precoce. Se você tem filhos, se trabalha com crianças e elas apresentam alguma dificuldade de enxergar com um dos olhos (ou os dois), encaminhe para o oftalmologista.

Quer baixar o texto? Clique aqui.


*Ambliopia às vezes pode ser referida como olho preguiçoso (do inglês, lazy eye).



                                                                                                Bruno Marinho de Sousa

  
Em inglês: Lazy Eye